4.4.09

Os filhos da filha de Chiquita Bacana



O toque da sirene. O apagar das luzes. Silêncio. O espetáculo vai começar. Eis que surge o primeiro contato platéia e espectador, a voz. A atriz Rita Assemany com sua voz aveludada começa a interpretação. Em um cenário simplório, contando apenas com papéis espalhados pelo chão e instrumentos. Atraso e descompasso entre som e luz, marcam o início da peça “Os filhos da filha de Chiquita Bacana”.
A atriz está descalça, passando total liberdade com o cenário. Figurino em branco fazendo uma aproximação maior com a figura da baiana, saia e blazer branco com sutis “confetes” coloridos dando maior alegria à roupa e fazendo combinação com o seu lenço que prende os cabelos. Os dois instrumentistas, que completam o quadro, seguem a mesma linha de figurino, calça e paletó branco com camisa listrada em branco e vermelho, estampando a boemia e malandragem brasileira.
Roteiro forte, com pitadas de ironias, sarcasmos, brincadeiras e um certo desdém com a figura baiana, fazendo um paralelo com a sua explícita paixão narcisista. O texto começa contando a história de um negro, escravo vindo pra Bahia e gostando muito... Tanto que pediu a Deus para reencarnar no mesmo lugar, volta como um sertanejo “arretado, cabra da peste” e gosta ainda mais. “Nem aí pro bem ou pro mal”. A sua paixão em ser baiano o traz em outra encarnação, agora como um artista baiano. O roteiro é intercalado com canções regionais, com muita influência musical do recôncavo baiano. A iluminação acompanha o ritmo das canções, mas, não de forma harmônica.
A paixão pela Bahia está muito presente nos textos. Porém, não deixa de ironizar o jeito “molengo” de ser do baiano e promover o preconceito sulista com o mesmo. A atriz tem alguns deslizes, tropeçando nas palavras.
A sonoplastia peca pelos erros técnicos iniciais, porém, logo tocam de forma harmônica e sincronizada com a musicalidade de Semani, e os músicos brincam com gestos e expressões tendo momentos de interação com o texto e a atriz.
Luz, som, gestos e voz, têm total sincronia quando fala da chegada do navio negreiro na Bahia. “Branco se você soubesse do valor que o preto tem...” O texto ganha maior densidade quando fala dos Capitães de areia, de Jorge Amado. Crianças réus e vítimas. Porém, não desperta tanta emoção já que o texto é lido. Logo depois, há interpretação sem leitura de textos, quando o roteiro faz uma analogia dos Capitães de areia, de Amado aos sacizeiros, de Brown.
Falando da culinária, há um merchandising, quando a atriz, passa a “vender o peixe” de famosos cozinheiros e quituteiras baianas.
“Vamo comer, vamo comer... Se não tiver...”. Neste momento o ritmo fica mais pesado, som, luz, e voz, conseguem prender a atenção e chamá-la para as desgraças que acontecem na Bahia, como a fome, a poluição... Mas, puxa para a comédia, dizendo que o baiano sabe transformar dor em prazer. “A Bahia é bonita, gostosa e dadeira”.
Os óculos com armação vermelha, que são utilizados para ler o texto que não foi decorado, combinam com os sapatos vermelhos que não são calçados, que combinam com o batom vermelho que emolduram a voz. Voz que canta encantando. Essas cores são ocultadas nas unhas, que são ofuscadas, pelos movimentos, gestos, protestos... Das mãos.
O texto retoma a crítica, agora contra a violência urbana, fazendo paralelo com a violência na política brasileira. Chamando a responsabilidade social, que nada faz. A crítica continua com a educação. A atriz, com efeitos sonoros faz voz infantil, a iluminação acompanha. Texto forte sobre as verbas desviadas da educação para o carnaval.
O espetáculo finaliza com uma súplica pela Bahia perfeita, “arquitetada pelos nossos sonhos”.
A peça, o roteiro, direção, interpretação, sonoplastia, música, iluminação, figurino, todas as partes que se juntam para se transformar no espetáculo, remete o telespectador a uma interpretação de um ponto de vista, que nada mais é que a vista de um ponto.

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