“Rio, rio, rio... Rio pra não chorar!”
Camoro, em tupi Rio Vermelho. Assim foi batizado o bairro pelos Tupinambás, primeiros moradores da região. Logo depois, sentindo O cheiro da maresia, do peixe frito, e das constantes festas, surge o primeiro morador ilustre do Rio Vermelho, o náufrago Diogo Álvares Côrrea, logo batizado de “Caramuru”, provável tripulante de um navio francês. Já ouvi dizer, que os posteriores europeus a habitar a Bahia eram prisioneiros a cumprir pena no novo continente, além de prostitutas, malandros, enfim, toda a corja rejeitada pela Côrte. Não me atentei pela veracidade da história, apenas pela curiosidade da mistura. Índios que tinham como finalidade na vida... Viver! Onde a arte, o prazer, o ócio não se desvencilhava do ofício. “No moinho de gastar gente”, veio o fim da escravidão e o negro perdeu a “proteção patriarcal”, mas, a alegria e a fé, por serem natas, permaneceram. Os caprichos, os dengos dos inhos e inhas se multiplicaram, se misturaram.
Mais de quatro décadas depois... A população não mudou muito. Há ilustres, famosos, boêmios como os índios... Índios da arte, da festa e do lazer, negros que infestam o bairro com cheiro de dendê, de suor do puxar a rede, da reza nos terreiros, e nas igrejas dos jesuítas. Hoje, o Rio Vermelho é conhecido como o bairro da boêmia, da cultura, da arte... Da cachaça, dos sacizeiros, dos pivetes, dos malandros.
O Rio Vermelho é ponto de partida para os regaes: “Bora tomar um aperitivo antes do show, véi”, e ponto de chegada: “Vamo tomar a saideira no mercado do peixe, brother!”. Esse é um dos dialetos falados no bairro dos tempos atuais, mas tem também dialetos sofisticados, já que, com suas dezenas de possibilidades de degustação de culinárias de todo o mundo e da Bahia, o Rio Vermelho também é lugar propício a High Society, dos intelectuais, que desfilam com seus automóveis luxuosos pelo bairro. Só não dá pra desfilar pelas calçadas, são cheias de sinais do tempo. Há quanto tempo ando por essas ruas? Tenho em cada cratera daquelas pedras inglesas, como um bem, ou melhor, um mal familiar. Buzinadas, luxo, lixo, e o vendedor de taboca, que aparece em minha rua toda noite de sexta-feira, tocando o seu sino, tilitintando pra lá e pra cá, às onze horas da noite, até os vizinhos acenderem suas luzes, e gritarem “eu quero dormir!”, então, ele responde, cambaleando de tão bêbado: “A taboca acabou! Só amanhã, agora! E vai... sem destino, tilitintando”.
Hoje, o Rio não é mais vermelho, é marrom e fedido, bem característicos dos dejetos que são expelidos, através de movimentos peristálticos dos seres vivos. Os tupinambás não mais se lavariam nessas águas. Talvez, por desgosto ou com muito gosto, beberiam da mesma água que faz do velho vendedor de taboca, ser tão gentil com os moradores, do bairro, vindo avisar que acabou!
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