Saia justa
Em atividades profissionais, tenho como uma das ‘obrigações’ ler muitas notícias, principalmente em sites, onde as informações são atualizadas quase que instantaneamente. Hoje, me surpreendi com a manchete: “ONU: 200 milhões podem migrar até 2050 por mudanças climáticas”. Um problema humano, provocado pela atividade humana, com conseqüências gravíssimas. Isso dá margens a muitas reflexões, mas nem tive tempo pra isso, dando uma circulada pela página, percebi que em maior destaque do que a nota anterior estava a participação de Geisy no programa da Rede Globo, Casseta e Planeta. Aí sim, a minha surpresa foi maior e os motivos para reflexões triplicaram-se.
Acredito que o caso Geisy, nem necessite de apresentação, mas vamos lá! A moça que foi quase linchada e quase expulsa da Uniban de São Bernardo do Campo, porque foi assistir aula com um vestido rosa - choque, muito curto. E que por esse motivo, estudantes conservadores, puritanos, que desejavam vê-la fora dali, se possível queimá-la na fogueira para ser nomeada como exemplo, e para que nenhuma outra moça ousasse a se comportar de maneira tão “ofensiva e lasciva”. Para banir a aluna da Instituição, estes exemplares alunos, gritavam gentilmente, “puta, puta”. A moça teve de se retirar sob proteção policial. Depois de tantos insultos, constrangimentos e exposição da aluna e do nome Faculdade, a Uniban tomou a pior atitude, anunciou a expulsão da aluna, o que provocou reações imediatas. Alunos de outras instituições tiraram a roupa em protesto, o MEC afirmou que pediria explicações da Uniban, enfim, Geisy virou notícia internacional.
O site do "New York Times" publicou com destaque uma reportagem com o título "Estudante é expulsa no Brasil após vestir minissaia". "El País" também publicou reportagem sobre o caso na capa, com foto da estudante. No "Guardian", do Reino Unido, o título era "Estudante brasileira é expulsa por ir de minissaia às aulas". O "Pakistan News" publicou foto de Geisy e fez questão de lembrar a imagem que o Brasil tem, bundas com biquínis curtíssimos. O mundo se espantou com a atitude de jovens brasileiros exigindo que os "princípios éticos e a dignidade e a moralidade acadêmica" fosse mantida.
Esse lastimável episódio, mas necessariamente a repercussão internacional sobre o assunto, me fez lembrar outra notícia que li à pouco tempo. Vocês lembram o ofensivo e preconceituoso comentário, que a atriz americana Wanda Sykes, fez quando o Brasil foi escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016? Pois, lembrem! A atriz indagou se o Comitê Olímpico, que fez a escolha, havia incluído ‘prostituição’ em suas modalidades esportivas e que talvez, no Rio de Janeiro, haveria uma competição para escolha da bunda mais bonita. Fico imaginando o nó que deu na cabeça dela, quando viu a notícia sobre Geisy (risos).
Não estou aqui defendendo a atitude destes vândalos, criminosos, selvagens que hostilizaram uma menina de 20 anos, que cometeu um terrível erro... O mau gosto na hora de se vestir. Só estou tentando entender quais são os nossos valores, quais são as nossas prioridades e que é país esse. Não quero medir o tamanho do meu vestido ou do meu biquíni com o tamanho da mentalidade de quem estará no mesmo ambiente que eu.
“ONU: 200 milhões podem migrar até 2050 por mudanças climáticas”. Mesmo o site dando menos destaque, é essa manchete que não me sai da cabeça. Já tinha pensado nisso, mas agora, é fato! Vou-me embora para o Capão, antes que falte um lugarzinho para mim.
O Paraíso me espera!
Acácia Novaes

